Com o IM Brasil 2026 se aproximando, o ciclo entrou em modo final. Treinos longos, ajustes de ritmo, revisão do bike, ensaio de transição. Mas tem uma pergunta que todo atleta carrega — consciente ou não — na hora de distribuir energia no treinamento e na prova:
Em qual etapa vale mais a pena ser bom?
A gente foi atrás dos dados para responder.
O estudo que analisou 18.500 finalizações profissionais
Em março de 2026, o analista alemão Thorsten Radde publicou no site Triathlete.com o maior estudo já feito sobre o impacto relativo de cada etapa no resultado final do triathlon iron-distance. Foram mais de 18.500 finalizações individuais de atletas profissionais, cobrindo 20 anos de provas ao redor do mundo.
A pergunta que ele quis responder não era "qual etapa dura mais tempo?" — isso todo mundo já sabe. A pergunta era mais difícil:
"Qual etapa determina quem fica à frente no resultado final?"
Para isso, ele usou um método estatístico chamado correlação de Spearman combinado com regressão linear múltipla: em vez de comparar tempos brutos, o método transforma os tempos em rankings e calcula o quanto o desempenho numa etapa específica consegue prever a posição final do atleta. O resultado é expresso como importância relativa, com todas as etapas somando 100%.
O que ele encontrou surpreendeu:

Tabela 1 — Estudo Thorsten Radde: duração vs. impacto no resultado (provas iron-distance profissionais, 2005–2025)
A corrida lidera. O ditado "bike for show, run for dough" se confirma nos dados — mas com duas ressalvas importantes.
A primeira: a natação vale mais do que parece. Ela ocupa menos de 10% do tempo, mas responde por 14,4% do impacto no resultado. Numa prova onde todo mundo sai da água junto, a natação parece irrelevante — mas os dados mostram o contrário.
A segunda: as transições têm peso desproporcional. Com apenas 1% do tempo, elas explicam 7,5% do resultado. Quem subestima a T1 e a T2 está deixando posições na mesa.
A tendência que está mudando o triathlon
O achado mais impactante do estudo de Radde é histórico. Em 2005, a corrida era 10 pontos percentuais mais importante que o ciclismo (45% contra 35%). Em 2025, pela primeira vez em 20 anos, o ciclismo ultrapassou a corrida (40,4% contra 39,4%).
Os motivos? Melhor nutrição esportiva — os atletas chegam ao final da corrida em melhor estado, reduzindo as explosões que antes amplificavam o papel da maratona —, equipamentos de ciclismo mais evoluídos, e atletas que passaram a arriscar mais na bike sabendo que a corrida está mais equilibrada.
O percurso também muda tudo. Em Kona, o calor amplifica a corrida para 46,4% de importância. Em Nice, as montanhas dos Alpes Marítimos empurram o ciclismo para 47,1%.
E no IM Brasil 2025? O que os dados locais mostram para os atletas amadores.
Tudo isso é fascinante. Mas e aqui, em casa, na prova que você vai largar nas próximas semanas?
Pegamos a planilha de resultados oficial do IM Brasil 2025 com todos os 1.752 atletas amadores — excluindo os profissionais e a categoria PC/ID — e rodamos exatamente o mesmo método do Radde. Correlação de Spearman entre o tempo em cada etapa e a posição final de cada atleta.
O resultado foi revelador.
O ciclismo lidera em Florianópolis
Diferente da média global do estudo de Radde, no IM Brasil o ciclismo é a etapa mais decisiva, com importância de 23,1% — empatado tecnicamente com a corrida (23,0%), mas com leve vantagem.
Isso faz sentido com o perfil da prova. O percurso de ciclismo de Florianópolis tem subidas que criam diferenças reais entre os atletas — exatamente o mecanismo que Radde identificou para percursos exigentes como Nice. Quem pedala bem abre tempo suficiente para segurar na corrida. Quem sofre no ciclismo chega à T2 sem espaço para reagir.

Figura 1 — Importância relativa por etapa: geral vs. gênero. IM Brasil 2025 · amadores.

Figura 2 — Importância relativa vs. % do tempo total. O peso desproporcional das transições é evidente.
As transições são um problema sério no Brasil
Olha o que os dados mostram: T1 e T2 juntas somam 36,1% de importância relativa — quase o peso da corrida inteira — e representam apenas 2,2% do tempo total da prova. O tempo médio de T1 foi de 9,4 minutos. Para uma transição de triathlon iron-distance, isso é muito.
Nos melhores triatletas amadores do mundo, T1 gira em torno de 4 a 5 minutos. Uma transição mal executada no IM Brasil pode custar 4 a 6 posições no resultado final — e os dados confirmam esse peso.
Por gênero, o padrão é consistente
A lógica da prova é a mesma para homens e mulheres. O ciclismo lidera nos dois grupos. As transições pesam igualmente. A corrida segue logo atrás.

Figura 4 — Tempo médio por etapa: masculino vs. feminino. O ciclismo feminino é em média 26 minutos mais lento.
O que isso significa para o seu IM Brasil 2026
Os dados de 2025 entregam três mensagens práticas:
• O ciclismo decide. Se você tem espaço para priorizar uma etapa nos últimos blocos de treino, o ciclismo é o lugar certo. Não no sentido de ir mais rápido e explodir — mas de ser consistente, eficiente, e chegar à T2 com pernas para a corrida.
• Suas transições valem mais do que você imagina. Ensaie. Cronometrou, racionalize o que você faz na T1 e T2. Um protocolo de transição bem treinado pode devolver minutos reais no resultado — e os dados mostram que esses minutos importam.
• A natação não é irrelevante. Mesmo com peso menor, uma natação mal executada — onde você sai do mar exausto ou desposicionado — contamina tudo que vem depois. Nadar dentro do controle, no seu ritmo, saindo em boa condição para o bike, continua sendo uma vantagem real.
Metodologia e fontes
Análise feita com base nos resultados oficiais do IM Brasil 2025 (1.752 atletas amadores, excluídos FPRO, MPRO e PC/ID). Método: correlação de Spearman entre o tempo em cada etapa e o rank total, com normalização para importância relativa somando 100%. Fonte do estudo global: Thorsten Radde, "Swim, Bike, or Run: Which Sport Determines Who Will Win a Triathlon?", Triathlete.com, março de 2026.
Bora largar forte em 2026.


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